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| Antes do anoitecer (2000) |
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O filme é baseado no romance autobiográfico do escritor cubano Reinaldo Arenas.
Retrata brevemente a miserável infância de Arenas, que vivia numa precária zona rural da Ilha de Cuba com sua grande e problemática família. Filho de "mãe solteira", e sem conhecer o pai, o pequeno Reinaldo vivia à margem da própria instituição familiar, comandada por seus avós, e mesmo nutrindo uma enorme admiração pela bela figura de sua mãe, era sempre tratado com total descaso, como aliás acontece comumente com os filhos da miséria.
Na escola primária do subúrbio onde vivia, Reinaldo descobre seu talento para a poesia, mas diante da repulsa familiar ao seu talento natural resolve fugir de casa, ainda garoto, com o ideal de juntar-se aos rebeldes do período pré-revolucionário de Cuba. Obviamente, seus ideais infanto-juvenis logo são frustrados, ao mesmo passo em que vai crescendo e se descobrindo homossexual.
Já na vida adulta, Reinaldo Arenas (o sempre magnífico Javier Bardém) vive sozinho em Havana, e ganha a vida participando de concursos culturais, para os quais escreve obras cada vez mais notórias. Logo seu talento é descoberto pelo mercado literário, e Arenas tem seu primeiro livro publicado, um grande sucesso.
Contudo, com a tomada do poder por Fidel Castro, a literatura contra-revolucionária (como a de Arenas), e o homossexualismo são vigorosamente combatidos. Ele tem que viver "enrustido", escondendo sua opção sexual do mundo e, mais que isso, escondendo seus escritos cada vez mais veementes no teor contra-revolucionário. Somente de forma clandestina, e com a ajuda de alguns amigos influentes, Arenas consegue publicar seu segundo livro, ainda que apenas na Europa, o que é motivo de grande frustração, pois antes de qualquer coisa o escritor ama seu país, e seu inconformismo com o preconceito que sofre na terra natal o amargura imensamente.
Mesmo vivendo de maneira "enrustida", escondendo sua verdadeira identidade homossexual e seus trabalhos sob sete chaves, o cerco vai se fechando cada vez mais contra os "libertinos", e Arenas acaba sendo preso (como a maioria daqueles considerados pervertidos por Fidel), e é levado para uma espécie de "campo de concentração" para presos "políticos", chamado de "Ilha da Juventude", onde passaria os piores dias de sua vida, e sofreria toda sorte de infortúnios.
Após muito sofrimento e muita luta interior para tentar manter sua identidade, Reinaldo acaba cedendo à única opção de salvação que lhe parece possível, e mediante uma "confissão forjada" consegue um tipo de indulto que o retira da Ilha da Juventude, com a condição de que viva de maneira totalmente clandestina, isolado juntamente com outras "personas non gratas" ao regime de Fidel.
Inicia então sua luta no sentido de conseguir sair do país, diante da constatação de que sua pátria amada não o deseja e, pior, tem por ele e por todos os "libertinos" verdadeira repulsa. Fidel declara publicamente que Cuba não precisa da escória composta pelos libertinos e pervertidos homossexuais (num discurso real inserido brilhantemente no filme), e abre para estes a possibilidade de finalmente conseguirem sair do inferno que Cuba tornou-se para eles.
Driblando uma burocracia aqui e outra ali, Reinaldo Arenas finalmente consegue sair da Ilha para exilar-se nos Estados Unidos, onde vive ainda um bom momento criativo, e publica ainda algumas obras, mas é vencido pela AIDS, e opta por antecipar seu sofrimento, suicidando-se em 1990.
"Antes do Anoitecer", escrito por Reinaldo Arenas durante a maior parte dos anos de seu sofrimento, foi publicado algum tempo depois de sua morte, e até hoje é respeitado em vários lugares do mundo. A riqueza desta obra está também no seu conteúdo histórico, pois a dura ditadura de Fidel Castro e sua cruel repressão a todos aqueles que se demonstravam contrários aos seus ideais é retratada com riqueza de detalhes e de maneira extremamente corajosa por um personagem da história cubana. Mas não é só isso. "Antes do Anoitecer" mostra também de maneira muito triste e dolorosa as cicatrizes que a rejeição sofrida por Arenas pela pátria que tanto amou lhe causaram ao longo da vida, e como a frustração acumulada durante toda a sua luta pessoal pela liberdade de expressão e para ver seu trabalho reconhecido culminaram em seu trágico e profundamente triste final.
É um filme muito bem feito, tecnicamente inspirado, tem várias inserções de imagens reais do período vivido por Arenas que são um verdadeiro soco no estômago, alguns trechos de discursos de Fidel Castro que parecem irreais de tão autoritários e preconceituosos (se bem que atualmente não é muito diferente), e de alguma forma nos dá uma triste aula de história ao passo que podemos tomar conhecimento, pela visão do oprimido, de mais uma passagem lamentável na história da humanidade, que fez (e ainda faz) tantas vítimas em razão, como já disse, do puro preconceito e autoritarismo.
Javier Bardém, indicado ao oscar por este papel (muito merecidamente, aliás), encarna a figura peculiar de Reinaldo Arenas com perfeição, interpretando o escritor homossexual sem o transformar numa caricatura ou num grande mártir, e sem grandes pretensões acaba conseguindo levar ao conhecimento do grande público a figura ímpar que foi o escritor.
Há ainda participações especialíssimas no filme. Jonny Deep "ousa" em dois papéis opostos - um transsexual que contrabandeia toda sorte de objetos para dentro e para fora da Ilha da Juventude, e um coronel autoritário fidelista que reprime os presos da mesma Ilha da Juventude. Sean Penn também tem uma aparição menor, mas não menos curiosa, e está irreconhecível como o caipira que dá carona ao garoto Arenas o início de sua fuga do lar familiar. E, por fim, há ainda a participação do cineasta Hector Babenco, de modo que só pelo elenco o filme já valeria a pena.
Antes do Anoitecer é um filme que teve pouquíssima visibilidade e divulgação por aqui, até por não ser um filme dito "comercial", e até para locação é difícil encontrá-lo, mas vale a pena garimpar e assistir, pois é realmente muito bom, denso, maduro, pesado, daqueles que nos enriquece com conhecimento, cultura, além de contar uma triste história real, protagonizada pelo também imperdível Badém. Não perca! |
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| por Flávia Aguilhar |
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